Domingo à noite

 “Sinto muita saudade — mas tem uma coisa dentro de mim me dizendo que o meu caminho é exatamente este, e que não posso nem devo tentar modificálo.

E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam – e queimar também destrói.”

Seja lá onde a gente quer chegar, devemos começar e recomeçar o que não foi feito para irmos além. E não é uma questão física ou material, mas sim, sensorial. Nossos maiores desejos são consequência daquilo que ainda não sentimos ou gostaríamos de ter de novo. Nós desejamos aquilo, não sabemos dizer o quê, mas é “aquilo”. As nossas angústias são intensificadas por tentações que muitas vezes nem existiram ou já foram apagadas. E aos poucos nossas previsões vão se distanciando a cada ação se nos mantermos parados contando com a intenção de sua factibilidade. A questão é que agir com inteligência nem sempre é seguir uma linha e manter o foco como se diz. É certo apenas que nos mantém ocupados, mas a segurança não promove mudança.

“Desculpe mas foi só mais um engano? E quantos ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com essa fome na boca… ‘chegue bem perto de mim. Me olhe , me toque, me diga qualquer coisa ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada.’”

“… essa aceitação ingênua de quem não sabe que viver é, constantemente, construir, e não derrubar. De quem não sabe que esse prolongado construir implica erros – e saber viver implica em não ver esses erros, em suavizálos e distorce-los ou mesmo eliminálos para que o restante da construção não seja ameaçado.” 

“Não vou perguntar porque você voltou,acho que nem mesmo você sabe…Eu também não queria perguntar,pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão,mas não é,sei que não é,você também sabe,pelo menos por enquanto,talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta?É preciso encher o vazio de palavras,ainda que seja tudo incompreensão Só vou perguntar porque você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto.E esquece sabendo que está esquecendo…”

A melhor forma de conhecer alguém, é tentar entender a forma como elas pensam, mas a forma como você se coloca no mundo em relação a mesma, não pode se manter igual. Ao mesmo tempo, o nosso comportamento de querer ser visto e reconhecido, fugindo da insegurança humana do esquecimento, pode perder todo o sentido. Se nos habituássemos a uma menor exposição dos fatos, talvez não precisaríamos acreditar na realidade dos nossos pensamentos e cair em um poço de buscas sem fim. O mistério pode ser sufocante, mas é muito mais interessante. Ele não mata nem destrói, mas sim, te protege.

““Pensando melhor, continuavam sem saber, fazia muitos anos, se a realidade seria mesmo meio mágica ou apenas levemente paranóica, dependendo da disposição de cada um para escarafunchar a ferida.” “Preciso entrar com certa ordem no que digo, e dizer de novo, vê se me entendes: ele não se afasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo.” “. Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão. “

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