O desenho e as interpretações

A produção é como um bolo saído do forno, que só pelo cheiro dá mais vontade de comer e se deliciar a cada mordida.

A produção é uma sinestesia contínua, que nos movimenta. E antes de tudo, essa continuidade motivacional é uma resposta do que se é visto entre as sinapses mentais e as manuais. Então, recortando o design, vale colocar a necessidade de expor suas ideias mentais no papel de forma clara. E uma das formas de representar isso é pelo desenho. E não adianta me dizer que “eu não sei desenhar”, porque para mim isso não é mais que um bloqueio individual. E um daqueles bloqueios que a gente nem percebe que pode gerar em alguém.

Por que a criança não pode colorir fora da margem? Porque a boca é vermelha e o céu é azul? Agora a aurora boreal não pode fazer parte do inconsciente coletivo infantil? A gente não percebe, mas o simples fato de fazer parte do universo referencial infantil – sendo familiar, amiguinho ou professor –  acaba sugerindo uma palavra de ordem, responsável pelo desvio crítico individual da criança em formação. Do ponto de vista filosófico, este talvez seria um post questionando à “perfeição formacional”.

Talvez, a questão é que pela quantidade de regras que o aluno, desenhador, se impõe – além da percepção do ensino superior como uma continuação direta do ensino médio, cheio de regras voltadas para o vestibular- a valorização da liberdade de escolha acaba ficando em segundo plano, logo na faculdade. O desenho livre deveria ser repassado desde cedo na educação do indivíduo e não  apenas para cursar Belas Artes.

E quem sabe, muitos mitos e regras de trabalho manual seriam desmistificados e  compreendidos cada um, pelo seu porquê de serem dadas tais limitações. Por exemplo,..  Não deveria ser estranho ouvir que só se pode desenhar de um lado da folha – claro que pode desenhar dos dois, mas o valor do desenho vai ser dado em apenas um lado, sugerindo uma escolha; Não deveria ser estranho ouvir que lápis se aponta com estilete – afinal, quando falamos de desenho manual, principalmente livre, consideramos a área de contato do grafite com o papel; Não deveria ser estranho ouvir que não se usa borracha – levando em conta que toda a linha de construção é válida para referenciar o desenho, e que ele não deve ser corrigido a cada traço. Principalmente se ele faz parte de uma construção mental, que em sua essência, exige a libertação da expressão do traço; Não deveria ser estranho ouvir que é preferível ocupar grandes espaços em uma folha – principalmente se tratando de uma aula direcionada a uma média de alunos com certa efusividade mental, na qual é necessária a externalização da ideia, clara e facilmente visualizada; Não deveria ser estranho ouvir que a técnica de representação parte da escolha do aluno. Ora, se a representação é tida para o entendimento do outro, não sendo arte e sim projeto, a decisão parte do senso crítico do aluno quanto às suas habilidades e experiências com as técnicas de representação – seja em aquarela, marker, lápis de cor, pastel, digital, ou associação de todas.; Entre muitas outras perguntas frequentes nas salas de aula do ensino superior de desenho, a cada exercício,..

Qual o limiar das exigências? Até que ponto existe uma despretensão do aluno ou de fato o seu desleixo com o que não é obrigatório? Mais e mais questionamentos,.. (espero que não por muito mais tempo) me fizeram questionar a necessidade de criar regras para serem atendidas ou quebradas, ou que seja além isso, mas nem isso vinga muitas vezes. O estímulo de fazer as coisas parte quase que individualmente, com um pequeno empurrão das instituições de ensino. E dentre todas as fragmentações que podem existir no ensino do Design, a aula prática e de desenho são, na minha opinião, as que exigem maior dedicação do aluno, por parte do esforço manual e mental. O representar e o se fazer entender. É muito utópico imaginar que um projeto conceitual pode ser representado por imagens?

SOBRE DESENHO E EXPRESSÃO

“Entende-se que a criação não se limita ao plano. A ‘crise do papel em branco’, comum à prática projetual, vem da dificuldade em criar mediante a falta de concentração ou insegurança em defender sua ideia, medo, vergonha do traço e da própria concepção, inibição diante do colega – alvo de comparações… A metodologia vem contribuir nesse ponto para manifestar uma linha de pensamento/raciocínio.” (FREITAS MARTINS)

Em uma conversa informal com uma professora, recém-conhecida, alguns devaneios do seu discurso ficaram bem marcados em minha mente. Pois bem. Dizia ela que, por experiência própria, a relação do aluno com os exercícios da disciplina de desenho deveria ser aplicada com contantes modificações frente às mudanças comportamentais. E caso essas mudanças não fossem direcionadas para a percepção do aluno, seria impossível esperar uma postura diferenciada (e de valor) quanto às outras matérias. Até pode-se pensar: “mas logo a aula de desenho, que é tão,..” – Tão o que?

Nos meus últimos quase dois anos nessa academia vigente, já ouvi que a aula de desenho é “chata, enrolação, dá preguiça, não serve pra nada, não se aprende nada, só serve pra dormir”. Opiniões subjetivas, claro, mas que batem de frente com todo o discurso tido da minha participação em aulas de desenho na academia anterior. Mesmo que seja inútil uma comparação entre uma disciplina basicamente composta por alunos eletivos, mas com um envolvimento obrigatório anterior que sugeriu a continuidade das mesmas atividades. Logicamente, o posicionamento do ensino de cada universidade é pautado por um direcionamento específico – podendo ser uma faculdade de processo ou de portfolio, mas porque tanta discrepância em uma das poucas aulas que se traduzem com a mesma proposta?

Voltando para a conversa com a professora,.. É como se os questionamentos em torno do ensino talvez estivesse mais pautada na adaptação temporal do exercício do que na efetividade do exercício em si – claro, não cabe mais fazer 15 exemplares de uma garrafa de vidro, por exemplo, até que esse desenho fique perfeito. Mas antes disso, quando que essa foi a ‘forma ideal’ de trabalhar com o desenho? Esta metodologia não propõe nenhuma identificação do estudante para com o objeto. No entanto, no que tange a utilização de uma metodologia atualizada no exercício de desenho, acredito que muito menor possa ser a identificação entre um indivíduo e um objeto pessoal, pelo simples fato dele estar contido no conjunto de seus pertences. (atualização exemplificada como argumento durante a conversa).

Inegavelmente “os procedimentos metodológicos são uma forma de assegurar ao pesquisador, professor ou projetista, maior eficácia na sua inserção e no seu desempenho como um dos agentes das transformações da sociedade.” Mas sendo a atividade do desenho de observação, principalmente, um exercício de observação cuidadosa exigida por qualquer natureza, sendo uma proposta de desenho natureza morta, objetos estáticos ou modelo vivo. A aproximação formal com o que está sendo proposto vai ser dado pelas dinâmicas interacionais propostas a partir desse olhar.

“A dinâmica da ação em suas fases de percepção, reflexão, opção e intervenção, necessárias a desenvolvimento dos projetos, sendo para tanto, sempre mediada pelo exercício da análise, da criação e da crítica.” (FREITAS MARTINS)

E apesar do discurso, segundo Katinsky e Munari, ambos professores da Universidade de São Paulo, ter sido direcionado para a atuação da Arquitetura e do Urbanismo, eles são de fato aplicáveis como instrumentos da prática de Projeto em diferentes ciências e disciplinas.

“A arte é um fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer” (apud PAREYSON, 2005, p. 26) Ou seja, se toda produtividade humana contém um caráter formativo, toda atividade humana tem um caráter artístico, assim como a própria arte autêntica é produzida praticamente a partir do mesmo modo de integração que a própria arte é capaz de assumir as outras atividades.” (FREITAS MARTINS)

Este mesmo autor discute um ramo da filosofia do início do século XIX,conhecido como Hermenêutica (interpretação de signos e de seu valor simbólico), que envolve a totalidade da pessoa no momento da interpretação. Pareyson nomeia como “pensamento trágico” o modo como o ser humano depara-se com a sua realidade existencial, ou seja, com a sua situação no mundo.

Nesse sentido, reforço a necessidade de se prever a ATITUDE RESULTANTE DO DESENHO NO COMPORTAMENTO DO PROCESSO CRIATIVO DE PROJETO.

Textos de apoio:

Links relacionados: #Faculdade de processo ou de Portfolio #Hermenêutica

Livro: FREITAS MARTINS, Rosane Fonseca de Freitas Martins e Júlio Carlos Linden. Pelos caminhos do Design – Metodologia de Projeto. Londrina: EDUEL, 2012

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