se faz sentir, faz sentido

Insights sociais.

Não tem nada mais prazeroso na vida do que ouvir histórias. E ser a porta-voz delas é sempre um grande prazer. Mas como eu nunca fui boa de memória, alimento esse sonho internamente.

O mais legal de poder transmitir as sucessões de fatos é com certeza poder ter tido a chance de participar deles, ver de perto, de forma que o registro é muito mais intenso para você, ator. Seria quase como ir à um museu e presenciar a finalização ou a continuação de um processo realizado por alguém, em exposição. A ideia que está lá, fluida, mas que não pertence mais a quem a produziu, e sim inteiramente sua, adequada ao seu contexto interpretativo.

Hoje tive o grande impulso de escrever os meus pensamentos, principalmente por me lembrar do grande teatro é este em que nós vivemos, e presenciamos intensamente. E para todo ‘ato’ nacional, a introdução desse teatro também em ambientes acadêmicos. Já fazia tempos em que eu não realmente parava para interpretar as relações inter pessoais de um ponto de vista externo. Mas já fazem dois anos em que eu mudei de contexto urbano, então todo aquele preconceito inicial entre contrastes de formas de tratar até de estilo de vida já foram renunciados à uma ideia mais generalista. Mas que ao mesmo tempo regride um pouco às mesmas reflexões desde à época de colégio. Quem nunca parou para pensar naquele frisson gerado pelos pequenos grupinho, que no fundo são parte de um todo, e que querendo ou não transforma a formatura em um grande ritual de finalizações, de passagens e de novos ciclos por vir.

Ter a atenção de acompanhar uma rotina na sua rotina, e perceber todas as grandes máscaras sociais que são criadas é algo de espetacular. Essas máscaras nada mais são que posicionamentos individuais do que é atualizado aos olhos nus de um comportamento alheio. Eu sei que ficou confuso, mas da mesma forma que as palavras estão simplesmente saindo da minha mente para o teclado, as máscaras são criadas sem sequência lógica. E também pudera, são instantâneas e móveis assim como a própria fala, que não pode ser estática. Mas o melhor dessas máscaras são poder quebrá-las e re transformá-las, atualiza-las com a sua própria interferência. E quem sabe ainda, ajudar a construí-la assim como você vê, em outras pessoas.

Em uma metáfora com educação, podemos usar o vestibular. Este, é outro ritual de passagem no Brasil. E sua perversidade transmuta entre o entendimento do que se quer ser futuramente e o que se mostrou ser até então. E exige a identificação do indivíduo quanto a máscara que deseja construir ou participar das áreas que se assemelham àquilo da qual se identifica. Em algumas faculdades o vestibular não se limita à provas das grandes matérias/ciências compreendidas. Mas inclui também uma prova de habilidades específicas, já pensando em direcionar o interesse do aluno à um nicho. Não precisamos entrar nos méritos positivos ou negativos que isso resulta, mas talvez questionar o envolvimento dado pelos próprios alunos que se  beneficiam ao passar nesse processo seletivo. Esse simples posicionamento é talvez um dos fatores que fazem parte da construção da faculdade, a repercussão dela quanto à formação dos alunos e do amadurecimento e direcionamento prático profissional dado ali. A imagem reproduzida por interesses semelhantes entrando em harmonia por uma convergência. Mas muito menos estamos falando de “um mundo perfeito e ideal”, pois como todo sistema, na Academia existem os relacionamentos dados apenas pela “Lei da mais valia”, onde só um tem voz. Mas não sejamos hipócritas, lá também será aonde você poderá fomentar um certo network na sua área de conhecimento. O que é sempre muito mais confortável.

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Voltando a avaliar a questão comportamental, associemos um fator:  as histórias e as vivências tidas partem de um comportamento, que parafraseando Roberto da Matta, “Não é preciso repetir para que se crie o extraordinário. Basta que se coloque um ato numa posição especial.“. Dessa forma é como se a própria existência dele, assumisse aquela memória como sendo uma parte significativa daquele contexto. E, nada assim seria se não fosse o conjunto da qual ele pertence.

Por ocasião, a citação anterior não é em vão. Estou lendo um texto do mesmo autor que fala sobre “Carnavais, malandros e heróis”, sendo o mesmo título do livro. Em uma passagem logo dos primeiros capítulos ele diz: “É a partir da tomada de consciência que dados infraestruturais podem ser dramatizados, transformando-se em “coisas sociais”. Ou melhor, é pela dramatização que o grupo individualiza algum fenômeno, podendo, assim, transformá-lo em instrumento capaz de indivualizar uma coletividade como um todo, dando-lhe identidade e singularidade.”

E nada mais comum de ser feito durante o amadurecimento, não? Questionar a sua posição naquele espaço. Uma pergunta de certa forma espiritual, mas que na verdade gera o reconhecimento de todo o seu entorno, e quando se reconhece em primeira instância. E assim, toda a relação de pertencimento naquele sistema faz sentido, ou espera-se que seja questionado até assim fazê-lo. Mas mesmo sem um questionamento consciente, acredito que tomamos muito mais partidos inconscientes durante o nosso dia-a-dia em sociedade que acabam por nos questionar perante aos outros. E aí voltamos às máscaras construídas.

Em outro trecho o autor continua o assunto, ilustrando o que para ele é um ritual: “o momento extraordinário permite pôr em foco um aspecto da realidade e, por meio disso, mudar seu significado cotidiano ou mesmo dar-lhe novo significado Tudo que é “levado” e colocado em foco pela dramatização é deslocado, e assim pode adquirir um significado surpreendente, capaz de alimentar a reflexão e a criatividade.”

A passagem pelo Diretório Acadêmico de seu curso superior passa pelo mesmo sentido, principalmente para o curso de design, imagino, onde todas as formas de dispersão e aproveitamento de tempo são válidas e de uma forma ou de outra, podem ser vistas como produtivas, em algum outro momento. Trata-se de um local de contato, onde se misturam e se agregam formas de agir, cada qual o que lhe cabe para aquela situação. O ritual de passagem começa pelo trote, solidário ou partidário, e é nele que serão estabelecidos o primeiro contato com as crias da identidade de seus participantes. Dali em diante, cabe ao aluno perdurar um vínculo com não só o meio físico como social ali estabelecido. Esse ambiente é uma atmosfera de possibilidades e encontros das mais diversas histórias que se encontram e dispersam, formando um diálogo único daquela geração envolvida. E em alguns momentos, esta vai sofrer necessidades de contato maior e outros menor, para quem sabe, reativar os laços novamente, em um outro momento de sua passagem pela faculdade. E ali, serão criadas novas máscaras, diferentes daquelas tidas nos grupos sociais de colégio e de pessoas na rua, e estas, que vão se ampliar para novas ramificações e diferenciações de comportamentos em ambientes. E se não for assim, qual a graça de se sujeitar a fazer parte das suas atividades diárias?

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Então apesar das várias associações que podem ser feitas, não existe uma metodologia sistêmica que possa apoiar as justificativas ou objetivos gerais da formação desses encadeamentos sociais. Eles apenas acontecem, sem forças do destino ou qualquer coincidências sequenciais, mas talvez por condensações e aglutinações de contrastes. E que assim seja, pois nada melhor do que construir compartilhando. Assim, DaMatta continua “o rito também não é marcado por qualquer substância especial, que o transforma em algo individualizado e reitificado. Ao contrário, tudo pode ser posto em ritualização porque tudo que faz parte do mundo pode ser personificado, e reitificado.”

Por hora, vale a reflexão introdutória sobre as relações entre os momentos do mundo social. Acho que ainda melhor que fazer parte dele, é marcar de alguma forma a participação nele, nem que seja acompanhando o bloco descer a ladeira. Onde até mesmo um monólogo em uma página pública já pode ser uma forma de manifestação de demarcar uma máscara social percebida. E mais ainda, necessária, no diálogo midiático e disperso em que vivemos. Poder fazer parte de algum rito ou ritual, variável em suas convenções, está sendo para mim a maior oportunidade de tornar a identidade da minha realidade com máscaras de estudante, designer, carioca ou brasileira, em um só alinhamento: a minha própria.

Nelsom Mota, Edu Lobo, Tuca, Torquato Neto, Capinam, Luiz Bonfá, Francis Hyme, Braguinha, Zé Keti, Luis Eça, Sidney Miller, Olivia Hyme, Dircinha Batista, Eumir Deodato, Dorival Caymmi.

Nelsom Mota, Edu Lobo, Tuca, Torquato Neto, Capinam, Luiz Bonfá, Francis Hyme, Braguinha, Zé Keti, Luis Eça, Sidney Miller, Olivia Hyme, Dircinha Batista, Eumir Deodato,  Dorival Caymmi e outros que são mais fáceis de identificar.

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